um poema de Al Berto

Al Berto

deitado há muito tempo – o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se apercebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão

mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível – aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e sedução

mas nada é perfeito – nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido

e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados

ando há uma semana arrumando livros – comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma

por hoje é tudo

al berto in horto de incêndio

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